segunda-feira, 22 de maio de 2017

Bastardo


Bastardo. Reiteradas vezes o avô paterno o chamara assim.

Com cinco anos, ele não sabia o significado do termo, mas a agressividade com que o homem calvo e branco o pronunciava fazia-o adivinhar que não era boa coisa ser bastardo.

O pai, se ouvia, não fazia nada para desdizer o dito. Talvez fora dele mesmo que partira a acusação: o menino seria filho de outro homem que não ele. Assim teria justificado a separação precoce. 

Se esse era o fato, no entanto, por que passara a buscar o garoto aos domingos?

Se a criança era sabidamente bastarda, por que levá-la à casa dos avós que não eram dela?

A ideia era fazê-la refém para vingar-se da suposta traição da ex-mulher?

O velho era rude não só com o garoto, era um demônio a expelir ranço pela boca. Sua esposa, pequenina, era calada, possivelmente cativa do tirano da casa. A criança via no olhar da avó uma dor maior do que sentira ao ser chamada de bastarda. A dor da mais velha acolhia a do mais novo.

O menino amuou-se. 

Ao que se sabe, pai, madrasta e menino não ficaram mais do que meia hora na casa dos velhos. Lá estava também a irmã do pai, talvez indiferente ao que passava - quem se acostuma com violência desde a infância deixa de reconhecê-la em algumas de suas formas mais corriqueiras.

Por fim, no início da noite, o menino foi devolvido à mãe com a palavra que ganhara.

- Mãe, o que é bastardo?

Se a expressão "laços do passado" tem um sentido, pessoas separadas com filhos conhecem-no muito bem. É difícil resignar-se diante de um cativeiro simbólico que, frequentemente, assume a forma de uma criança. Quando o filho ou a filha possui traços físicos ou até o tom de voz do ex, a sensação de ser visitado pelas sombras dos enganos - geralmente da juventude - pode gerar aversão e, por esse motivo, culpa em quem é pai ou mãe.

A mãe exasperou-se. Onde o menino ouvira a palavra?

Já não bastava a ideia insuportável de encontrar o ex-marido - domingo sim domingo não -, de entregar o filho a ele, deixar que o filho se contaminasse com a fala e os modos dele, com os valores dele, com os trejeitos dele, agora tinha de ouvir uma palavra que vinha como acusação que, se não era familiar a ela, levantava suspeita de que a outra família a considerava adúltera?

Como explicar a palavra e o que ela pressupunha? 

No contexto, ela indicaria a traição da mãe, ao menos uma relação sexual fora do casamento, uma vilania materna. A mãe amada não seria mais perfeita aos olhos do menino?

Soube que fora o avô a ofender seu filho. Irritou-se, odiou o velho. Vociferou. E o garoto sentiu que a questão era ainda pior do que parecia. 

O fato de a mãe não ter sido adúltera e, portanto, de o garoto ser um legítimo filho e neto, tornavam tudo pior para a mulher. Contudo, o menino passou a ter dúvidas...

Seu pai era, aos domingos, um homem atencioso, simpático, criativo e bom. Não era pai? Era pai?

A mulher dele, ex-amante, era visivelmente contrariada com a presença da criança, um laço de um passado que não era o dela, mas que se enrolava em seus pés causando tropeços. De qualquer forma, se  o garoto não era bastardo de sangue, estava sendo na criação. Ela parecia odiá-lo até nas pequenas sutilezas. O sacrifício de aturar, com disfarce, era para ela um ofício custoso. Não convencia.

O homem era submisso a ela. E os domingos eram assim: melhores longe dela, quando o pai era pleno. Porém, o pai era sempre triste, quase sempre dela.

O menino passou a desconfiar que o pai não era pai. A ideia se inculcara em sua cabeça. A mãe dizia que sim. Tudo era muito confuso. Quem era aquele homem afinal?

Domingo sim, domingo não. Essa passou a ser a contagem do tempo. Angústia na noite do sábado que precedia a visita. Angústia na noite do domingo após voltar da casa do pai.

Casas tão diferentes, regras tão diferentes, tratamento idem.

A mãe legítima não era de brincar, falava pouco com o menino e muito com muitas outras pessoas ao telefone. O pai era de inventar, falava com o garoto sempre ancorado na imaginação. Era a realidade insuportável demais?

Faltava ar ao menino com frequência. Passaram a dizer que era um menino doente.

Por que mãe e pai eram separados? Essa resposta não havia.

Quando a família do pai ou da madrasta tinham contato com o bastardo, o garoto sentia-se deslocado. Nada precisava ser dito. 

Ele sabia exatamente que não estava em seu lugar.

Era doloroso para ele, certamente também o era para o pai. Mas será que não fora o próprio pai que dissera à família que o garoto era filho de sua ex-mulher com outro?

Na época não havia testes de DNA. Legalmente, o filho era dele. Inclusive, registrara-o com o nome que escolhera, contrariando a vontade da mãe legítima.

Os traços eram quase todos da mãe, e isso ajudava a aumentar a suspeita. (Não ver o pai nos traços do filho sempre é motivo de suspeita, o contrário, naturalmente, não.) 

Os domingos de visita eram meio aversão, meio paixão. Deviam ser ao pai também. 

O que ouvia de sua mulher entre os domingos?

O que o menino ouvia sobre seu pai entre os domingos?

Os lados antagonistas certamente se aliavam inconscientes. 

A quem julgar?

O pai não era homem suficiente, o menino também não o era.

A dança de cinco anos entre os dois seguia uma música, e toda música está fadada a acabar. As sinfonias são mais longas, as cantigas não.

Quando o menino contava dez anos, nasceu uma menina.

Se havia empenho do pai em visitá-lo, a partir de então, perdeu o viço, a cor e talvez o sentido.

O garoto também já tinha padrasto.

Talvez o padrasto, que o visitava pelas palavras do menino, lembrava ao pai que ser pai é algo sério. Foi ele então ser pai de uma menina e, depois, de outra também. Certamente um pai maravilhoso - ele tinha o dom.

Do menino, foi só um pai bastardo, ilegítimo e infiel. 

E se todas as mentiras para sustentar coesa uma família se transformam em um bordado na casa paterna, ei-la: é uma toalha grande e colorida - sempre ela - a enfeitar, aos domingos, a mesa de jantar.











quinta-feira, 18 de maio de 2017

Lugar de palavrão é em sala de aula!


"Chupa!!" - exclamou alto uma aluna de 15 anos para outra de mesma idade logo no início de minha aula. A palavra, que, apesar das poucas sílabas, possui status de palavrão, rompeu a monotonia corriqueira e criou uma expectativa na sala: afinal, o que eu, o professor, faria diante da situação? Seria o momento de reprimir ou refletir?

Fiz uma sugestão:

"Fulana, o ideal seria que, ao utilizar uma expressão como essa, você a complementasse com algo como: chupa essa manga!"

Ela riu. Sua amiga, a que deveria chupar alguma coisa, perguntou-me sobre o porquê de se colocar um complemento vitaminado como aquele. Ela certamente intuía que a expressão perdia a força e, como percebi pouco depois, mesmo consciente de que a palavra indicava uma relação poder - humilhação, não compreendia exatamente o significado mais profundo do que dissera. Fiquei, por esse motivo, surpreso e desapontado.

A primeira garota falara com tanta autoridade o palavrão, e a outra entendera com tamanha propriedade a desforra da amiga, que foi de espantar a inocência de ambas, que ignoravam a vulgaridade do imperativo que a palavra chupar adquirira no contexto.

Foi então que, de súbito, lembrei-me de quando estava na faculdade e pude ir a uma palestra do renomado professor Dino Preti. Seu tema era ao mesmo tempo interessante e polêmico: palavrões.

Amparado pelo conhecimento do mestre e amante do improviso e do inusitado, não precisei ponderar muito para conduzir a aula por um caminho novo.

Antes de prosseguirmos, porém, como não quero ferir a sensibilidade dos leitores, aviso: daqui para diante, o texto mencionará questões ligadas a comportamento sexual e cultura.

Aos que possam me julgar indecoroso por abordar o tema com adolescentes, desculpem-me, mas nada que eu possa falar a eles poderá ser mais escandalizante do que aquilo que veem e ouvem na TV aberta ou em qualquer rápida busca na internet. Então, entre repreensão e esclarecimento, escolhi a segunda alternativa.

Agarrei a oportunidade pelo rabo:

"Fulana, ainda bem que você disse isso. Faz tempo que eu gostaria de conversar com vocês sobre essa importante questão da nossa cultura."

A menina e a sala toda naturalmente estranharam.

Continuei:

"Quando fulana disse 'chupa', é óbvio que ficou subentendida uma prática sexual..."

Uma delas duvidou de minha afirmação, mas logo outras pessoas da sala confirmaram: "mas claro que é, fulana".

Ela ponderou um pouco e concordou: "É verdade..."

Continuei explicando que, infelizmente, em nossa sociedade, existe uma cultura que associa determinadas práticas sexuais a relações de poder, nas quais quem é favorecido adquire um status de superioridade. O outro, no entanto, que beneficiou sexualmente o primeiro,  fica na condição de humilhado. É desse modo que se criam tabus em relação ao sexo, os quais nos acompanham pela vida toda. A ideia de agredir por meio do ato sexual ou de questões envolvendo a sexualidade também se perpetuam, fazendo que a expressão do erotismo de cada um - que poderia ser saudável - ganhe força de perversão.

Portanto, se repararmos com espírito científico, palavrões expressam frequentemente condenações a certos comportamentos e características individuais ou coletivas e reforçam preconceitos que deveriam ser combatidos. Quando, por exemplo, a palavra gordo, anão, puta, cu (parte de trás), viado, babaca (vulva ou cheiro dela característico) e expressões como filho da puta, chupa rola (pomba) e tantas outras - presentes no cotidiano escolar para quem quiser ouvir - são endereçadas a alguém, transmite-se uma herança cultural lamentável e, nesse sentido, o palavreado chulo - como representação de uma ideologia - seria muito mais condenável do que a agressividade a ele associada. 

(Observem que etimologicamente cu, palavra usada corriqueiramente em Portugal, é menos preocupante que babaca, palavra de origem bantu, tabu 50 anos atrás.)

Se ser gay é uma condição da orientação sexual de alguém; ser gordo, uma condição física; ser anão também; aceitar esses adjetivos como material para ofender um indivíduo equivale ao desejo até inconsciente de estigmatizar pessoas e grupos, de modo que o ofensor e testemunhas coniventes da ofensa deleitem-se com uma pretensa superioridade outorgada por condições sobre as quais não se tem controle. Nesse sentido, comentários homofóbicos e gordofóbicos, por exemplo, em nada diferem das chamadas injúrias raciais, muito comuns também na escola, embora atualmente, por causa de uma lei de 1989, ofensas desse tipo, quando públicas, escandalizem os mesmos alunos que chamam outros de viado (talvez de transviado). Ou seja, vivemos um paradoxo na hora de injuriar: crioulo (negro nascido na América) não pode mais, viado pode. Por quê?

Devem valer os dois? Ambos são condenáveis? Ou simplesmente: ”que se foda"? (Foda: mais uma vez o sexo em um contexto de violência)

De fato, creio que seja algo a se pensar e não vou tomar mais o seu tempo, pois entendo que meu ponto já ficou claro.

Portanto, resumindo tudo: a aula foi mais ou menos nesse tom, e até agora não me senti convencido de ter agido errado. Preciso também confessar que uso alguns palavrões. Quando o faço, assim como tantas pessoas, obviamente não me atenho a uma reflexão sociolinguística a respeito de seu uso, eles simplesmente escapam - mas nunca tendo alguém, uma condição física ou o que o valha como alvo. 
De qualquer forma, como disse Freud, o pai da Psicanálise, "às vezes um charuto é só um charuto", porém ele sabia, em essência, que um charuto representava muito mais do que isso, quanto mais um palavrão.



quinta-feira, 4 de maio de 2017

Crise dos 40: o uivo de um lobo

Crise dos 40: o uivo de um lobo

Um vento gelando a espinha anuncia uma nova estação. Os sinais vão se formando mais claros: a lua cheia começa a minguar, ainda que imperceptível a olhos menos acostumados a vê-la. É viceral, toda a natureza se converte em um irresistível chamado. O lobo deixa o bando e, dirigindo-se ao alto de um desfiladeiro, entoa um uivo longo e choroso.

O som ecoa por todas as redondezas da mata escura de seu habitat. Prenúncio de tragédia?

Talvez.

Algo está em gestação nesse mamífero tão singular, e a gestação sempre é uma transição intensa que protagoniza milagres ou tragédias.

De qualquer forma, que entendo eu de lobos?

Na verdade, nada. A metáfora é roubada de expressão corriqueira, que encontrou no símbolo do Canis lupus um modo de referir-se a momento tão específico por que passa o homem cuja idade ronda, para mais ou para menos, a faixa dos quarenta. Esse que vos escreve, inclusive, está justamente agora a intercalar uivos e fôlegos à beira de um alto penhasco.

Se você também está se transformando nesse nobre e temido animal, creio que é importante que saiba, estamos transitando por uma fase bastante crítica, que pode fazer feridos e ferir-nos também. Contudo, se conseguirmos fazer um esforço para olhar um pouco além das aparências, é possível que, com certa estratégia e sorte, consigamos dar as costas para o penhasco e voltar ao convívio da matilha em melhor estado do que quando a deixamos.

Antes de prosseguir, já deveria ter me adiantado, este texto, acima de tudo, destina-se a homens uivantes, embora acredite que qualquer pessoa possa se beneficiar de alguma maneira com seu conteúdo.

Vamos lá então!

Pois bem, lobos, estamos cada um de nós em seu próprio território, assim manda nossa lei. Sendo machos lupus, aprendemos a curtir nossas dores sozinhos, essa sempre foi uma lei sagrada para nós, é o peso inexorável de nossa condição na espécie. Foi assim com os lobos que vieram antes de nós, parece ser assim conosco agora, espero que não seja assim com as gerações futuras. Leis da selva podem ser modificadas?

Preciso ir direto ao ponto, homens como nós somos assim: sem rodeios.

Atingimos uma idade em que passamos a colocar a vida em nova perspectiva, conquistamos uma bagagem significativa e, conscientes ou não, procuramos chegar à conclusão de um processo que chamarei de grande síntese. Ela deve consistir em um confronto entre os anseios da juventude e as demandas de que demos conta na fase adulta. Procuramos agora o saldo dessa equação, simples ou complexa, conforme nossa história tão singular.

Acredito que quanto mais essas demandas distanciaram-se dos anseios originais, mesmo dos menosprezados ou inconfessáveis, maior e mais intenso tende a ser o uivo dado no desfiladeiro, ou seja, a crise que nos atinge em cheio na derradeira hora de pesar a vida na balança de nossa própria verdade. Os pesos que usaremos nela são oscilantes em massa e dizem respeito a valores, crenças que norteiam o sentido que damos à nossa vida, crenças sobre nós mesmos que superamos ou estamos em via de superar, bem como o peso que atribuímos a determinadas situações pelas quais passamos e não estaríamos mais dispostos a passar.

Começa então o processo de pesagem, são os primeiros sinais de crise. 

Nossas energias praticamente mobilizam-se em função desse evento solene. Desejos e vontades reprimidas virão à tona, às vezes de modo a deixar-nos desconcertados e abismados com sua força inebriante ou avassaladora. Nosso conflito interior eclodirá, inesperada e inconvenientemente, para fora de nós, e pode originar outros conflitos, de modo a envolver esposa, filhos, familiares e colegas de trabalho.

Poderemos finalmente fazer a tatuagem - que adiamos ou que não podíamos fazer - ou comprar a moto ou carro que deixamos de ter para podermos mobiliar a casa de 15 anos atrás.

Se nos sentirmos mais seguros e atraentes com investidas de mulheres mais jovens, a tentação poderá nos deixar febris, e avaliaremos com muita dificuldade que limites devemos respeitar e quais deles não há mal em ultrapassar.

Se tivermos religião, talvez a ela dirijamos certa fúria. Questionaremos as regras invisíveis e sua realidade transcendente. Somos lobos que se perguntarão se o papel de ovelhas ainda serviria para nós.

O casamento passará pelo crivo lupino, alguns de nossos amigos de bando irão se separar - talvez nós mesmos - desejosos de curtir uma vida de solteiro. Quem sabe a ideia de maior liberdade torne-se irresistível, aquela liberdade da qual abdicamos por pressão social ou pela falsa crença - comum na juventude - de que realizar-se na vida era casar-se. Alguns de nós vestiram o terno do casamento como uma farda de soldado e, de repente, no meio da guerra, passaram a questionar-se sobre o sentido dela. É claro que as boas ou más experiências contarão, cada experiência de vida é única. Contudo, os desejos de experiências não vividas que, ao invés de superados, foram suprimidos, cobrarão um alto preço.

O lobo que chegou solteiro a essa idade talvez arrume um casamento relâmpago. As promessas da vida de solteiro talvez tenham se cumprido em parte, porém a ideia de envelhecer sem uma companhia para a qual a amizade seja mais importante do que o sexo pode começar a se tornar um martírio. 

Os filhos, ah, os filhos?

Deveria ter tido filhos? Agora os quero.

Tive filhos sem os querer? Já estão crescidos ou quase lá. Não tenho mais obrigação com eles.

Tenho filhos adolescentes com uma vida melhor do que eu tive? Talvez, sem perceber, eu comece a competir com eles.

Quem pode julgar desejos, experiências e tudo que foge à racionalidade e planejamentos? 

Nos metemos em empregos e profissões aos quais tivemos de sacrificar nossos velhos valores e ideais? Pedir demissão ou mudar de profissão pode ser uma saída, quase uma fuga de algo que, inadvertidamente, sentimo-nos agora incapazes de suportar.

É talvez penoso, mas sábio admitir: Lobos, chegamos a uma fase em que já não podemos negar que muitos de nossos planos não deram certo, algumas experiências demonstraram que certas atitudes do passado estavam equivocadas e sentimos, exatamente agora, uma força acachapante que nos oprime com uma terrível dúvida: que estilo de vida assumir daqui para frente?

Para piorar, dificilmente nesta idade, nossas decisões não afetarão profundamente outras pessoas. 

E se a mulher com quem estivermos também for uma loba a uivar em outro desfiladeiro? 

Momentos de tristeza e introspecção serão inevitáveis...

É, senhores, a crise, seja ela uma brisa ou ventania, de fato, tornou-se incomodamente presente e até dolorosa. A mim, buscar compreendê-la, para enfrentá-la, parece a melhor alternativa.

Penso, portanto, que posso compartilhar um método que tenho aplicado durante meus uivos. Aos lobos interessados, deixo um roteiro. Espero que possa lhes servir como tem servido a mim.

Diante do desfiladeiro, instado pela lua a uivar, parece-me importante:

- Reconhecer sem defesas o momento de crise;

- Ponderar sobre as consequências das ações que, por impulso, desejemos tomar;

- Reconhecer os sentimentos e a importância das pessoas que podem sofrer as consequências de nossas decisões;

- Deixar o uivo um instante para informar aqueles que fazem parte de nossa intimidade que vivemos um momento delicado em que, simplesmente, precisamos uivar e estamos enfrentando uma crise - essa parte costuma ser muito difícil para nós, lobos, principalmente os que se acreditaram superiores a qualquer tipo de demanda emocional desarrazoada.

- Conversar sobre a nossa crise ajuda a aliviá-la; terapia pode ser um ótimo recurso, mas muitos de nós, lobos autossuficientes, não acreditamos nisso. Então, tudo bem, procurar amigos de confiança e conversar sobre as próprias emoções e conflitos consiste em um ato de coragem que pode ter um efeito alentador;

- Confiar que essa é mais uma fase, passamos por outras crises antes. Dependendo de nossas escolhas, sairemos desse desfiladeiro mais fortes e autoconfiantes.

Creio oportuno lembrar que alguns filósofos do passado afirmavam que a maior sabedoria da vida consiste em se preparar durante toda a existência para o derradeiro momento da morte. Toda crise é uma espécie de morte, essa é só mais uma. Cabe a nós a escolha de como morrer para, enfim, renascermos mais fortes, sábios e sensíveis. Sinceramente, espero que tenhamos essa capacidade.

Um longo uivo na noite aos irmãos de matilha!






quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Fábula sobre o ensino público de baixa qualidade




Na fazenda de Trás-dos-Montes, galos eram bons padeiros. Esse era indiscutivelmente seu melhor e mais apreciado dom. Madrugadores, o ofício chamava-os naturalmente para meter-se diante do forno e preparar alimentos para toda granja e chiqueiro. Contudo, se tinham a destreza da alquimia necessária à produção de pães, o mesmo não se podia dizer da sorte ou aptidão para empreender sua própria padaria. Assim, ainda que houvesse demanda diária e desejosa dos pães que poderiam oferecer, não possuindo padaria, os galos viam-se de mãos atadas.

Por outro lado, no chiqueiro havia um porco, mestre na arte demagógica e, apesar dos métodos questionáveis, zeloso administrador. Se estava na natureza dos galos fazer pães, na do porco em questão estava tocar um negócio e explorar galos. Desse modo, o destino - que os colocara na mesma fazenda - inspirou neles a ideia de partilhar o mesmo ramo de atividade. Em verdade, o porco nada tinha com o negócio de padarias, mas, reconhecendo a demanda, viu na atividade uma forma de se fazer famoso e respeitado. Ademais, com tantas pessoas envolvidas entre padeiros e clientes, certamente poderia tirar outras vantagens da rede de padarias que estava disposto a administrar. 

O porco convenceu o fazendeiro que ter padarias seria um bom negócio. Desse modo, surgiu o empreendimento a partir das articulações do astuto porco. Tudo iniciado, foi o porco ter com os galos.

Os padeiros, desejosos de viver de seu ofício natural, aceitaram trabalhar para a fazenda por intermédio do porco. Este ofereceu-lhes salário, condições de trabalho e clientela vasta. Os galos ficaram felizes. Assim, as aves madrugadoras começaram a fazer belos e saborosos pães. Todo o chiqueiro e granja ficaram jubilosos com a novidade e possibilidade de comerem alimento tão essencial à manutenção da vida.

Contudo, com o passar do tempo, os galos sentiram que seu pagamento não era justo, tampouco suas condições de trabalho na padaria. De qualquer modo, as leis de mercado da granja, do chiqueiro e da fazenda eram claras: era possível reclamar com o patrão porco, fazer greve ou demitir-se. Apesar disso, os galos enveredaram por caminho menos eficiente e mais tortuoso. Não reclamavam com o administrador das padarias, mas entre si. Eles, em grande quantidade, desgostosos, não buscaram fazer pacto com a clientela para pressionar o porco explorador, também não fizeram greve. Os galos - senhoras e senhores! - começaram a contentar-se em maldizer a vida, o porco, a padaria e os clientes.

Nesse estado de coisas, obviamente nada melhorou para eles. A insatisfação, no entanto, atingiu índices recordes nas pesquisas.

Não pediram demissão.

Assim, nem salário, nem condições de trabalho melhoraram.

Outro fenômeno, no entanto, aconteceu.

Como o desânimo tornou-se geral, os galos começaram a comprometer a qualidade dos pães. Pães que eram bem assados e consistentes passaram a ser entregues crus.

Ninguém aguenta pão cru.

A granja e o chiqueiro ficaram desgostosos e quiseram uma solução.

A população procurou os padeiros. Os padeiros culparam o porco. O porco, astuto, marcou uma audiência com a população e mostrou os fornos e padarias. Mostrou também que não deixava de pagar o salário dos galos - maior que o da média da clientela.

Todos viram:

- o forno era ruim, mas funcionava.
- as instalações eram precárias, mas úteis, assim como os ingredientes dos pães.
- o salário era baixo, mas o galo não morreria de fome nem corria o risco de ser demitido.
- a única coisa que cabia ao padeiro era fazer pães.

Uma lúcida galinha, então, deduziu e ponderou:

- Bom, minha gente, se o galo está insatisfeito, em parte é culpa do porco, mas, se o pão está cru, a culpa é somente do padeiro!

O porco riu-se; ela tinha razão.

Os galos não gostaram do comentário, mas, ainda assim, a galinha tinha razão.

Calaram a galinha com vaias. Chamaram-na de burguesa. Disseram que estava mancomunada com o porco para dizer uma barbaridade daquelas.

Houve discussão, falatório, acusações.

A reação foi tamanha, que a galinha chorou uma noite inteira e passou a pensar que talvez não estivesse certa; o mundo talvez se dividisse mesmo em porcos do Mal e padeiros do Bem.

O porco continuou a rir-se.

Os galos continuaram a servir pães crus.

A população?

A população acostumou-se a comer só as bordinhas ínfimas dos pães, única parte a esquentar um pouco no forno de modo a tornar suportável o alimento.

MORAL 1: Porcos não temem galos.

MORAL 2: Se há salário, forno, ingredientes, padaria e clientela, o pão cru é culpa do padeiro.

MORAL 3: A população não se compadece de padeiros, devido à MORAL 2.

MORAL 4: A população se acostuma com pães crus.

COMENTÁRIO: Porcos temeriam a população e os padeiros, mas, como existe a MORAL 1, 2, 3 e 4, porcos acham graça em tudo isso.




 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Zeitgeist, internet e cultura de massa



O conceito de Zeitgeist ou “espírito de uma época” fatalmente dá-nos o que pensar. Sem dúvida, a internet fundou uma nova era e, consequentemente, um novo espírito. Assim, um conceito há muito conhecido das Ciências Sociais deixou de servir para descrever um fenômeno histórico e sociológico para tornar-se expressão de acusação de grupos cuja voz reverbera sobretudo no indômito espaço digital. Refiro-me ao termo apropriação cultural.

É nesse contexto que Coldplay, Beyoncé, Selena Gomez – no âmbito internacional – e a cantora Anitta, no Brasil, por exemplo, receberam duras críticas. Contudo, é interessante observar que tanto a banda inglesa quanto as cantoras representam o universo da música pop, conhecida pela característica de mesclar elementos culturais de diferentes matrizes. Esse mesmo gênero musical também possui íntimas relações com a chamada cultura de massa, responsável por conquistar públicos de milhões de pessoas, dentre as quais internautas de todo o mundo.

Sendo assim, ainda que muitas críticas sejam válidas e dignas de discussão, outras são discutíveis, uma vez que elementos culturais semelhantes surgem em diferentes culturas e com diferentes significados, de modo a invalidar, em muitos casos, a ideia de que existe exatamente um grupo que detenha o monopólio de uma expressão cultural. Só para citar um clássico exemplo motivo de polêmica, o turbante utilizado no Candomblé com um significado específico, é apenas um utensílio para o povo berbere do deserto, para muçulmanos, no oriente médio, e pode ter diferentes significados na Índia.

A essa questão, soma-se outra que não pode ser ignorada. Não somente eu como você, leitor, vivemos em uma sociedade de consumo globalizada, na qual desde objetos até ideias transformam-se em produtos, mercadoria, que selecionamos conforme nossos gostos. Nesse sentido, não costumamos nos perguntar se o uso desse símbolo ou aquele adereço, ou mesmo aquela palavra ou conceito, foi apropriado de uma minoria e esvaziado de sentido. Fazê-lo seria tornar a vida contemporânea quase impraticável. Assim, o único modo de protestar contra a cultura de massa seria deixar de consumi-la. Faço, portanto, o convite, quem estiver disposto fique à vontade para desligar seus televisores e desconectar-se da internet.


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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O homem mastigado diante do estandarte

O homem mastigado diante do estandarte

Alguns chamam de maldição, outros de loucura ou dom. Tudo depende do medo, do ceticismo ou do desejo que envolve poder ou não poder experimentar essa dupla natureza. Eu aprendi a entender como um presente, que devolve o que com frequência é roubado da vida. Ver e ouvir o que poucos conseguem, certamente, pode tornar-se loucura e maldição ou sentir-se como um dom – aquilo que se recebe sem pedir ou merecer - e ao mesmo tempo um presente – aquilo que proporciona júbilo ao se receber.

Revelo logo aos leitores: meu dom e presente consistem em enxergar aquilo oculto no instante da morte. Entretanto, como são poucas as mortes que já testemunhei, pouco vi de diferente do estado comum da natureza objetiva dos seres. Posso assegurar, contudo, que vi e aprendi, observando, algo quase completamente diverso do que narram as simplificações dos sistemas metafísicos.

Ainda agora enxugava as lágrimas de meus olhos. Vim a meu caderno de anotações para registrar este relato envolto em profunda e sincera comoção. Das mortes que observei, essa talvez tenha sido a mais vertiginosamente doce e inesperada, fabulosamente triste e bela, e, sem dúvidas, deixaria desconcertados muitos que estudam com minúcias esse tema que fascina e faz temer a humanidade.

Seu nome, idade, procedência e intimidade: desconhecidos. Tudo o que foi resumiu-se por mais de 7 anos na vizinhança pela alcunha de o “louco-da-praça”, um louco manso, calado, quase uma figura veneranda. Sua pele sempre se viu escura, bem escura de sol. Seus cabelos, bem espessos e ondulados, quase chegados aos ombros, nunca foram flagrados em desaprumo - um pente pequeno de plástico que saía do bolso logo pela manhã se incumbia de alinhá-los.

As teorias sobre seu passado eram infinitas, mas uma perseverava verossímil. Quem contava era uma senhora que se via semanalmente na praça levando-lhe uma ou outra muda de roupa, um cobertorzinho gasto de vez em quando e algumas frutas.

Sua narrativa dava medo e fazia que ouvidos pouco habituados a escutar atribuíssem a ela o adjetivo também de louca.

Ela uma vez me narrou a saga do louco, sentada ao banco da praça do qual há pouco saí. Naquele dia, eu estava ali doando uns sapatos a ele, sapatos que foram meus e certamente lhe sobrariam nos pés.

Disse-me a mulher com tristeza:

- Vê o louco-da-praça? Sabe por que ele é assim, por que está aí? É porque a mãe o mastigava, o engolia e depois o regurgitava.  Voltava então a trazê-lo à boca para o malfeito mais uma vez e sempre assim por diante. O pai, por sua vez, não o mastigava, mas o via sendo mastigado, portanto o mastigava de um outro jeito, de um jeito doído e infinito. Quando o louco ainda não era louco, aos 14 anos, o pai chutou-o para ser mastigado também pelo mundo. O que resta a quem é mastigado todos os dias?

- O louco-da-praça, se está assim, depois de tanto, ainda está no lucro.

O que lhe sobrara da vida humana era o asseio. Em tudo muito limpo. Usava uma torneira ao lado do bebedouro, perto da lagoa do parque, para higienizar-se. A velha lhe provia sempre um toco de sabão de coco. Ele nunca aceitara sabonete ou xampu.

Fosse na Índia, teria o status de um iogue; ali, era o louco-da-praça – também o louco-do-parque. O ascetismo fora dele uma escolha?

Seu abrigo era de um papelão que vez ou outra se renovava. Cobertor e jornais isolavam-no do frio. Ao que parece, sabia ler, mas não lia; sabia falar, mas não falava; escutava, sim, escutava. Os meneios de cabeça e olhares mostravam sempre lucidez quando, por algum motivo piedoso, lhe dirigiam a palavra. O louco-da-praça era pacífico. Quem o olhasse com atenção encontraria também outros adjetivos. Diriam-no limpo, doce, invulgar, íntegro, resignado. Talvez até dissessem que ele não era da praça nem era louco. Mas nunca ninguém disse, tampouco eu, tampouco a velha que contava dele a história.

Certamente, o louco-da-praça só podia ter sido mastigado, mastigado com voracidade e inclemência, de um jeito que ninguém merece ser.

A pracinha onde morava ficava no caminho para o grande parque do bairro, bem perto mesmo. Tinha um só banco, o banco onde me sentei às seis e meia de hoje para amarrar meu cadarço antes de ir ao parque para caminhar.

Assim, foi exatamente ao erguer a cabeça e me preparar para erguer o resto do corpo para retomar meu percurso que meu triste e consolador presente se apresentou com uns sonzinhos estridentes de pandeiro. Olhei ao redor no intuito de encontrar quem o tocava, mas nada. O som era tão próximo; diria que quem o tocava estaria a meu lado. Olhei então em direção aos papelões do louco-da-praça e entendi.

Seu corpo ali estava completamente estendido, rijo, sem viço.

Tudo que narro agora, leitor, ao que me consta, só eu vi e ouvi.

O som do pandeiro foi se distanciando de mim e indo em direção ao louco. Uma carroça – e agora via com nitidez – aproximou-se do corpo inerte. Desceram músicos, um homem com estandarte e mulheres a dançar e rodar. O som era festivo, envolvente. O pandeirinho cheio de fitas coloridas amarradas se via na mão de um rapaz, quase um menino. Os lenços revezavam-se indo do alto ao nível da cintura das mulheres, levados pelos dedos adornados de anéis dourados. Era uma celebração à vida nos primeiros momentos da manhã, numa pracinha esquecida da cidade indiferente.

Uma mulher matrona, sem acompanhar a dança, saiu então da carroça. Mesmo a distância, era possível ver-lhe o sorriso. Aproximava-se do corpo morto do louco-da-praça.

Nesse momento seu rosto cobriu-se de gravidade. Com um gesto aos músicos, fez que cessassem o clangor dos instrumentos. Três passos à frente, o homem que carregava o estandarte aproximou-se, colocando-se frente aos pés do louco-da-praça. A impressão era de que mostrava a imagem ao morto que, obviamente, nada enxergava. Ficou ali solene.

Todas as atenções eram agora para a mulher que se debruçava sobre o corpo tão só daquele homem que sempre fora tão só, pertencendo à pracinha e, como folclore local, a todos, sem nunca sentir pertencente a nada nem ninguém. A mulher então colou sua testa à dele.

Aqui, caros leitores, preciso admitir: seja lá o que tenha sido, aquilo foge-me completamente à compreensão. Por esse motivo, cederei as próximas linhas a outro narrador, o Universo. Acredito que, somente assim, tudo ganhe o sentido necessário para se compreender o motivo das lágrimas daquela cigana, as quais praticamente lavaram o rosto morto do louco-da-praça.

Daqui, portanto, deixo-os com narrador melhor.

A cigana colou a testa na testa do indigente, inspirou fundo. Foi o que bastou para ver seu passado e senti-lo em sua própria pele. Quem pudesse ver as cenas diria que desde criança aquele homem fora mastigado, engolido e regurgitado por sua mãe. Beliscões não lhe faltaram no berço. Berros para calar-lhe o choro infantil eram um eco frequente em sua cabeça. Empurrões, apupos, xingamentos, puxões vorazes de orelha. Arranhões, surras de fio, pisões nos pés, nas mãos, no corpo contorcido. E o pai a ver-lhe percorrer o calvário, a ver-lhe dependurado na cruz quase todos os dias.

O menino era “feio”, “burro”, “um verdadeiro idiota”, “um maldito estúpido”, “um doente incapaz”, “um peso”, “um boçal”.  A cigana chorava fundo sobre o menino-da-praça.

O pai então um dia trouxe-lhe uma caixa de engraxate. Que o infeliz ao menos valesse algumas moedas por dia.

Valeu muitas moedas, mas nunca o suficiente para amainar o ódio da mãe.

Aos 14 anos cansaram-se dele, e ele ganhou a rua, ganhou o mundo; e somaram-se às próprias dores outras dores do mundo, daquelas que não se poupam nem nas praças diante das catedrais das grandes metrópoles. Algumas ironicamente faziam parecer que as violências dos pais tinham sido corretas e na dose suficiente para prepará-lo para as verdadeiras dores que representavam a vida. A cigana chorava ainda mais e balançava a cabeça em negação.

As passagens que se seguiram foram se atenuando com a visão de esmolas, de algumas ações de irmãs de caridade, além de uma e outra alma boa que, mesmo nas calçadas, diante do comércio fechado do centro urbano, pesaram-lhe as feridas, afagaram-lhe a face e disseram-lhe palavras sobre Deus, com o cuidado de não lhe dizerem que o Criador era justo e bom. Resumiam-se a dizer que aquilo teria fim, que Deus olha pelos aflitos e guarda a eles bom lugar. A cigana concordava.

Com o avanço da idade, jovem, passou a inspirar temor. Foi quando desistiu de falar e passou a acanhar-se num canto e viver de esmolas, fazendo de tudo para que sua aparência inspirasse antes piedade do que receio. Queria também estar limpo e, na medida do possível, bem posto, a exemplo dos transeuntes que iam para o trabalho, pois pior do que causar temor era inspirar repugnância. As noites de febre não se podiam contar. Quando a dor parecia infinita, a piedosa mulher mirou o estandarte.

Enxugando as lágrimas, a cigana começou a passar as mãos sobre os cabelos do menino, que já não era mais da praça, da rua ou deste mundo, e que foi se fazendo menino em forma, diminuindo em tamanho e se acomodando ao colo daquela que o envolvia como uma verdadeira mãe, a mãe que nunca tivera, conhecera e com quem jamais sonhara. Agora ele cabia perfeitamente no colo da cigana. Já não estava morto, dormia. E respirava fundo em sono intenso.
Ela beijou-lhe a face, a testa, acomodando-o ao peito ainda agachada. E nesta parte, quem narra já não é o Universo, porque a dimensão humana cabe a mim contar.

A cigana tinha um menino no colo, ergueu-se diante do estandarte e fez uma reverência à imagem da santa de pele escura que se via nele pintada e bordada. A santa cigana certamente tinha um carinho grande para com aqueles que não têm paradeiro no mundo. A santa cigana com toda certeza abençoava aquele menino que jamais fora, em verdade, o louco-da-praça.

A comoção entre os ciganos era geral. Até que o músico do violino gritou:

- Viva a nossa santa Sara Kali!

- Viva!! – celebraram todos os outros, sob as bênçãos do estandarte.

A dança sagrada de celebração da existência infinita seguiu na simples carroça cigana, enquanto a pracinha, inexpressiva e sem graça - cenário de minha visão mais aterradora e comovente -, tornou-se, para mim, um templo onde o mistério foi colocado para ser adorado em verdade e vida.







sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Oniríadas - A loja de decifração de sonhos, Gigi e outros contos

Pessoal,

Estou participando de um concurso literário do SESC com um livro de contos.
O livro se chama "Oniríadas - A loja de decifração de sonhos, Gigi e outros contos".

Os contos que o compõem são os seguintes:

A loja de decifração de sonhos e a salvação do Egito
A loja de decifração de sonhos e a linda Srta. D.
A loja de decifração de sonhos e a melodia russa
A loja de decifração de sonhos e a visita de Iansã

A loja de decifração de sonhos: epílogo

Aika e Gigi
Revelação a Gigi
Gigi e Ceci: um encontro delicado
Gigi e o latido humano
Gigi, o Esperanto e os sotaques
Gigi e o sonho com o homem pobre

A pornografia de Voltaire
A visita do coordenador
Ensaio sobre um Pai morto
Lições de um espectro
No compasso da reencarnação
O Exorcismo de Satanás
A herança do homem que não conseguia morrer
13 de agosto de 1963

Agradeço a todos a torcida!

Se tudo der certo, depois de junho eles poderão vir a público.